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O jogo das 20h

terça-feira, 25 de maio de 2010




Era na esquina da Rua A com a Rua B, especificamente às 20h na Lanchonete do Zé, que todo mundo se encontrava. Durante todo o dia, poucas pessoas circulavam no local. Depois do almoço, Dona Josefa, que morava no andar de cima da Mercearia do Povo na Rua A, descia pela escada com sua bengala de aço polido e comprava três pães na Padaria da Frente. Aproveitava a oportunidade e contava para Sérgio, o dono do estabelecimento, as dificuldades de sua canária Gaivota.

- Ontem à noite, depois da reunião, cheguei em casa e lá estava ela, deitada na minha cama. Gaivota tem cantado muito ultimamente e isso a deixa muito cansada. Nem tempo para voar tem! – balbuciava aos prantos.

- Se a senhora não parar de viver em função desse bicho, vai morrer de tristeza – respondia Sérgio com tom autoritário. Hoje à noite tem jogo do Brasil contra França. Na sua idade você não pode ficar trancada em casa, Dona Sefa, tem que se divertir um pouco. Além disso, meus filhos gostam muito da senhora!

Os filhos de Sérgio, revoltados com os modos cosmopolitas do pai, haviam se mudado para uma cabana na Praia do Litoral. Dividiam alguns gramas de alface e rúcula diariamente e não suportavam Mc Donalds. Defendiam o amor e repudiavam a violência.

Enquanto Dona Josefa enxugava suas lágrimas, algum transeunte passava pela Rua B. As crianças da família Souza corriam da babá e “Marcos óculos fundo de garrafa” chegava em casa depois de uma manhã intensiva na escola, repleta de gozações dos colegas e elogios dos professores. Nada mais acontecia no local até as 19h, quando tudo recomeçava.

Dona Josefa colocava Gaivota na gaiola e, como de costume, esquecia de trancá-la. Sérgio tirava seu terno e, resignado, colocava uma indumentária mais simples – não queria espantar seus filhos. Esses partiam a pé da praia com a mesma roupa remendada de sempre. Marcos limpava seus óculos e molhava (repetidas vezes) o cabelo com gel. A família Souza despedia a babá e se arrumava depressa para não perder a hora. Todos queriam assistir à partida de futebol na Lanchonete do Zé. O transeunte não era conhecido de ninguém.

As 20 h todos já estavam reunidos ao redor da televisão de 17 polegadas quando uma repentina queda de luz queimou o aparelho.

- E agora? Como vamos saber quem vai para a final? , indagava Dona Josefa, quase aos prantos.

- Posso tentar consertar o aparelho, mas vai levar um bom tempo – disse Marcos, envergonhado.

- Não, não. Tenho uma idéia melhor: vamos todos assistir ao jogo em minha TV de plasma. Vocês nem imaginam como a imagem é real! Sérgio deu a idéia com receio de que seus filhos não aceitassem e a família Souza se sentisse constrangida.

Em um minuto todos estavam postos em frente à tela de 50 polegadas. O jogo tinha acabado de começar quando o filho mais novo dos Souza gritou:

- Quem é aquele homem?


Por Mateus Benvenutti

1 comentários:

Unknown disse...

que da hora... idéia criativa..! você tem um dom entanto!

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